Eu assisti sexy Life e achei deprimente

A história de uma garota do interior do Estados Unidos que que provavelmente não viveu a sua adolescência na época certa.
Se muda para os Estados Unidos um pouco mais velha e com mais Liberdade do que teria antes e durante sua vida na pós-graduação, ao lado de uma amiga muito mais bem resolvida e inteligente ela vive aventuras sexuais e experimenta uma vida que pouco tem a ver com a realidade.
Realidade, aliás, é algo que durante todo o seriado passa o tempo todo batendo a porta da protagonista e ela não consegue deixar entrar.
Continuando...
A questão toda não gira em torno de ser feliz como tanto a protagonista diz, mas em se satisfazer.
Como tantas outras tramas a personagem tem uma sorte desgraçada ela sai do interior, mas ela vive uma vida privilegiada.
Vai morar em NY fazer um PHD o que você só é um p*** de um privilégio. Tem dinheiro para conviver e frequentar clubes caros e se envolve com um garoto perturbado muito rico.
É muito simplória a explicação de que um homem que não se resolve com o pai, o que é revelado no primeiro minuto de conversa dos dois numa carona que ele dá para ela, passa o tempo todo do relacionamento com essa mulher uma brincadeira de ioiô com ela joga ela e puxa ela de volta.
Uma mulher mal resolvida que sonha em ser mãe e construir uma família ter uma vida estável assim como todas as que ela viveu quando era criança e viu crescer lá na Georgia, de onde ela veio, mas que esbarrar com encantamento de uma vida cheia de aventuras que ele oferece muitos vícios. A história não mudaria muito de final ou perspectiva se ela tivesse viciado em cocaína álcool ou qualquer outra droga, mas ela se vicia em sexo.
Sexo é colocado na vida dela não como algo que se faz com um homem que se ama, mas como uma droga.
Ela experimenta ao sexo com esse homem e tem com ele um relacionamento tão perturbado destruidor quanto um relacionamento baseado em sexo, apenas sexo pode dar.
Um relacionamento abusivo e que vários momentos o cara a manda embora ela vai ele pede para voltar ela volta sempre na esperança de viver com esse homem o sonho de ser mãe e construir uma família, mas com ele vivendo esse vício em sexo.
Ela finalmente se separa dele, casa com homem padrão que nunca viveu nada do tempo provavelmente teve pai mãe história de vida tudo certinho e, por sinal também é Rico.
Tem dois filhos com ele mostra-se uma mãe maravilhosa, mas isso pouco faz diferença na sua vida. O vício fala mais alto o tempo todo.
Ela deliberadamente deixa um diário cheio das suas experiências picantes que ela nunca falou para o marido para ele ler ele lê e tenta fazer com ela o que, até então parecia ser o relato de experiências picantes que ela gostaria de viver de novo.
Não, não era isso.
Sem querer relatar toda a série e dar milhões de
spoilers, resumindo, ela tenta conviver e ignorar que sua relação com o sexo não é um vício.
Destrói o casamento, a possibilidade de encarar o problema como realmente um problema, se entrega ao vício, apesar de tudo, e isso é o seu "final feliz" no seriado.
E isso é que, pra mim, foi deprimente. Isso e muito mais.
São tantas as maneiras de dizer que é deprimente que eu nem sei por onde começar
Eu esperava que uma pessoa que está no Ph.D. em psicologia que trabalha com isso teria a capacidade de enxergar a sua relação doentia com sexo, teria como primeira procurar tratamento psicológico. A mulher precisa de terapia, está vivendo uma crise existencial e não se ocorre em momento nenhum procurar tratamento. Ela até procura o seu professor e numa fala diz, “você é a pessoa mais próxima de um terapeuta que eu conheço e o cara não é capaz de mandar ela se tratar?! Não é por falta de dinheiro ou tempo, inteligência?
A sua melhor amiga é uma psicóloga, professora universitária e autora de livros, trabalha assuntos relacionados ao feminismo com casamento, e a protagonista ela só descobre do quê a amiga fala no final da série, quando amiga tá lançando um livro no meio da palestra, não parece que elas não conversam, pelo contrário, elas passam
o filme a série inteira conversando, trivialidades e tudo que a outra consegue é apoiar cada decisão errada que a protagonista decide tomar. Que merda de amizade é essa?! Será possível que as pessoas não têm capacidade de conversar com seus amigos sobre a realidade de suas vidas, conversas profundas e de qualidade.
A gente precisa conversar muito mais sobre os motivos pelos quais se vive e não apenas do que acontece na vida.
É surpreendente a superficialidade das relações entre as pessoas entre os amigos. A superficialidade com que as pessoas tentam tratar os seus problemas que as pessoas abordam os outros para tentar ajudá-los quando vem eles em apuros. A superficialidade das soluções que eles encontram um para o outro e principalmente que os outros admitem para si
Se ela fosse viciada em uma droga alucinógena e o marido descobrisse um diário cheio de experiências maravilhosas que ela tivesse vivido nas suas viagens alucinadas, ele não teria proposto a ela trazer pra dentro do relacionamento a droga e tentado viver com ela suas "viagens".
O maluco do início do seriado, o namorado problemático consegue resolver seu “problema” com seu pai e como por um milagre se vê pronto para, agora, viver a história de amor com a ex-namorada, e o fato de oito anos terem se passado, a mulher estar casada e com dois filhos pouco importa para a sua sina em recuperar a mulher. Ela foi capaz de, com sua experiencia em psicologia, compreender o cara, entender todas as suas falhas e aguenta-lo até que ele a coloca pra fora de casa como um (não consigo nem pensar num comparativo, por que nem com animal se faz algo assim). Mas do jeito que o namoro começou, acabar daquela forma nem é tao surpreendente.
E por ela ter sido a única mulher que aparentemente cruzou o caminho vazio desse homem, ele nunca a esqueceu. Ela foi a pessoa que fez ele enxergar o seu problema e apenas com a ausência dela, anos de vida vazia ele, de uma hora pra outra, vai resolver sua questão com o pai e fica “curado”.
Ela não era a mulher que ele amava, mas a única pessoa que ele teve na vida que realmente o entendendo. Ele não precisava voltar para ela, ele precisava encontrar uma pessoa que desse a ele a segurança de que ele é compreendido, que não é um monstro... um terapeuta poderia fazer isso?! Quem sabe!? Uma rede de amizade saudável, terapia, tempo de qualidade para criar relacionamentos reais? Nada disso faz parte da vida de gente que trabalha demais, é rico demais, vive a fantasia que o dinheiro, fama e poder pode proporcionar. A realidade dura também retira isso das pessoas, portanto, não é privilégio dos privilegiados, mas uma realidade dura da humanidade que a cada dia deixa de ser um pouco mais humana.
A protagonista escreve e trabalha uma teoria que é ridicularizada durante a série, a monogamia entre humanos. Que a realização de uma vida sexual plena está em se praticar sexo com uma pessoa apenas. E com ela desenvolver todas as suas fantasias, respeitando os limites da interação sexual entre dois parceiros (ela não defende a suruba ou qualquer termo mais adequado para o sexo grupal). Ela tenta argumentar e passa a série inteira realmente respeitando sua convicção, até que no final se “liberta” dessa “trava” e simplesmente atravessa de Connecticut até a ilha de Manhattan, depois da apresentação do teatrinho do filho ao lado do marido perfeito, deixa o marido cuidando dos filhos enquanto observa a localização da esposa correndo para o apartamento do ex-namorado. E chegando lá, como quem corre para a uma redenção dos seus problemas e resolve: “fuck me”. E o marido, como em todo filme machista não poderia ficar por baixo, ele liga para sua “possível amante” e diz “hi...”.
Machista sim, muito machista. O Marido da perturbada é um corretor de investimentos cuja fama atrai uma mulher super bem-sucedida para Nova York só para trabalhar ao seu lado. Ela se torna sua chefe, mas passa o seriado todinho implorando para que ele largue sua esposa problemática e se abrigue em seu apartamento. Ela dá a chave de casa para ele e diz vá e nunca mais saia. Ele é casado e tem dois filhos, mas isso é irrelevante.
O namorado galã bem-sucedido trata a protagonista como objeto do início ao fim da série. Os episódios são recheados de diálogos infames e machistas como “eu ainda não terminei com você”, “você é minha” e o namorado maluco tem total liberdade de masturbar a mulher onde quer e quando bem entende. Se essa mulher não vive com infecção na “pepeca” ela tem a imunidade mais foda do mundo (o homem pega em toda Manhattan e mete a mão sujinha dentro da vagina dela o tempo todo). A protagonista simplesmente cede aos desejos, ideias e caprichos dos homens, não há um só momento em que ela é a protagonista do sexo que ela tanto “ama”, ela é apenas levada àquilo por eles.
Até na festinha particular de swing que o casal (o casal casado) vai uma mulher faz sexo oral no marido dela, na frente dela, com a reprovação dela. Quando um outro homem tenta tocar na esposa, que está saindo correndo daquele ambiente hostil, o maridão ofendido, com o pinto babado e gozado guardado na calça, enche o outro de porrada. Lá na frente eles se resolvem, mas não com um pedido de desculpas do agressor, porque, afinal, a mulher era dele. E não acaba nisso, lá na frente o casal se resolve. O maridão é um homem corretão, fica repetindo que isso não sairá da cabeça dele, que ele ultrapassou os limites do acordo nupcial, que aquilo ela uma mancha. E a protagonista ameniza, diz que não é traição se ela viu, na festa que ela consentiu estar e passa pano no erro do marido, ele não pede desculpas a ela tampouco. Afinal, ele não estava errado quando, aos protestos de sua esposa, com a outra ajoelhada na sua frente esperava o consentimento de poder ou não o chupar. Que cena deprimente.
Machista quando, depois de ler pela primeira vez o diário picante de sua esposa o marido ofendido praticamente estupra a sua esposa, machuca seu rosto contra um balcão enquanto penetra ela de costas, sem nenhum carinho, mas ela, mesmo sofrendo, na cena seu diálogo é “yes, more”. Ela acha estranho o rosto machucado, ela acha estranho o marido depois disso sair sem nem a beijar, ela acha estranho, mas afirma que foi a melhor transa de sua vida com seu marido. Oito anos de casados e esse foi o melhor momento?
Machista quando mostra que essa mulher insaciável procura o marido que está ocupado vendo um jogo e ele transa com ela, mesmo vendo o jogo e brochando ele traz o vibrador e aquele diálogo dá a entender que ela se satisfazer com o vibrador era algo corriqueiro, que ela tinha que fazer, já que ela quer o que o marido não dá e isso era normal. A cena é feita para rir, mas é deprimente, também.
Machista quando o maluco ex-namorado, que a um ano começou a transar com a melhor amiga da protagonista (e isso era um segredo entre elas) por acaso a encontrou lá na casa da amiga. E a julgar por sua reação se sentiu autorizado a voltar a procurara-la. E como provar para ela que ela não o esqueceu? Vai até a casa da melhor amiga, pega o celular dela sem autorização, faz uma chamada de vídeo para protagonista e posiciona o celular pra ela ver o quão irresistível ele é. A melhor amiga aparece no vídeo mandando ele ir embora, que aquilo não era correto, que ela não quer transar mais com ele, nunca mais. Mas o bonitão dos dedos mágicos coloca as mãos sob a calcinha dela, sem resistência e consegue o que quer. Transa com a melhor amiga enquanto a protagonista assiste tudo ao vivo. A protagonista se ofende? Por sua amiga ser usada assim, por ser provocada assim, por ele ter esse comportamento? De jeito nenhum. Ela pega o celular, vai para o quarto da filha e se masturba vendo o maluco transando com sua melhor amiga.
Ah, mas isso foi errado, ela corre pra Manhattan (que agora já é na esquina e não mais a horas de trem ou de carro) para pedir desculpa a amiga por ter “invadido” sua privacidade. A melhor amiga estava preocupada porque precisava dizer que, mais uma vez voltou a transar com o galã maluco do seu ex-namorado. E fica tudo bem, afinal, o erro foi dela de ter assistido e não do outro de ter filmado.
Machista quando o ex-namorado maluco vai até a casa da protagonista e a pede em casamento. Tem a audácia de dizer que aquele anel tinha sido comprado a oito anos e guardado numa gaveta pela sua falta de coragem. E que agora, ele tem a tal coragem (falta noção, na real). E ela acha aquilo ruim, sim, mas fica revoltada, chateada? Não, ela fantasia como a vida seria boa se casasse com o maluco. E mostra eles transando em Veneza, ele sendo paizinho dos dois filhos dela e ela gravida e feliz de um terceiro filho. A realidade volta e ela decide ficar com o marido de verdade, pai dos filhos de verdade que ela já tem a oito anos. Sensatez ?! ela tem um número para essa decisão: 85%
Mas para essa constatação dela ela precisa antes ir até o maluco, sumir por quase uma noite inteira com ele em Manhattan e ao chegar em casa não encontrar seu marido e filhos (que tinham saído para andar de carro, técnica milenar de pôr bebê pra dormir) ela se dá conta que 85% é mais do que os 15% de prazer sexual que lhe falta no casamento.
Prazer sexual? A série mostra como é impossível concorrer o sexo do casamento com o sexo com um galã rico de Nova York que tem o pinto muito grande e sabe “naturalmente” técnicas avançadas de estimulação clitoriana. Mostra como o “homem dos dedos ousados” consegue fazer tranquilamente a posição do missionário, a técnica do alinhamento coital, perfeitamente e em seguida mostra o marido se irritando enquanto tenta fazer a mesma coisa, a protagonista orientando como fazer é deprimente e ele brochando é, mais uma cena corriqueira.
O prazer sexual nada tem a ver com o tamanho de um pênis ou o corpo do parceiro, mas o seriado precisa alimentar mais essa ilusão coletiva. Sim, o seriado precisa mostrar que o galã maluco tem o pinto muito grande e quem constata isso é o marido inseguro. Ele abandona o trabalho no meio do expediente, cruza a cidade, paga um mês de academia antecipada para ficar 40 minutos la dentro e tomar um banho no banheiro da academia com o galã. Nisso ele constata que o ex-namorado de sua namorada tem o pinto maior que o dele e se sente muito humilhado com isso. As cenas querem mostrar o quanto o ex-namorado é sexy enquanto pratica box, socando um saco de pancadas ao mesmo tempo que o pobre marido se exaure fazendo uma rosca direta na barra todo errado, lascando sua coluna e seu juízo. Que cena deprimente. O marido é um homem lindo e musculoso e o maluco um magrelo do pinto grande.
As cenas e o sentimento de revolta ficam brotando na minha mente e a certeza que os caminhos errados que as pessoas traçam em suas vidas são, as vezes, tão óbvios que dá muita raiva. Observar como expectadora como um problema que, pode não ser simples, mas é só mais um de tantos problemas que há num casamento destrói uma família é muito triste. Se alguém fica feliz e satisfeito com o resultado da trama, com o “fuck me” do final me deixa muito mais assustada. Ela realmente vai, no sentido literal e figurativo da palavra “se fuder” com a “solução” que resolveu dar ao seu problema.
Se entregar a um problema, ceder como se não houvesse saída, dizer que sexo prazeroso é 15% da sua vida e que não se pode ter tudo, mas depois correr atras de ter o tudo, tendo 85% com o marido e filhos perfeitos e os 15% com o ex-namorado que agora vira amante é muito, muito deprimente em minha opinião. O sexo não pode ser uma porcentagem de uma vida, mas inerente a ela, no casamento, fora dele, onde for. Não pode ser comparado a outra coisa e precisa ter seus limites estabelecidos. Como tudo, todas as necessidades da vida humana. Sexo é uma parte, mas não é tudo, nem 15%, muito menos algo que se pode viver levianamente, para tudo há regras e limites, se eles não são claros, há um problema estabelecido e ignorar o problema não é superá-lo.
A série não é sobre ser feliz, é sobre se satisfazer. E mostra, claramente, pelo menos para mim, que satisfazer-se não é ser feliz, ser feliz não é ser satisfeita, está mais para uma decisão diária de vida.
E por fim, a série tem duas psicólogas, a protagonista e sua melhor amiga confidente, aparentemente duas profissionais excepcionais e nenhuma das duas se dá conta de que toda a trama seria completamente sem sentido se a protagonista fizesse terapia. Eu não sei se isso é uma grande crítica aos psicólogos ou um grande merchandising para a terapia.
P.S. eu tive que me corrigir milhares de vezes no texto, de filme para série. E sim, essa série em 8 episódios é um roteiro esticado a força, daria muito bem pra ser um puta filmaço denso e bom de assistir. Um filme como “closer”, denso daquele jeito.
P.S.2. eu tive que apagar muitos palavrões de interjeição de revolta ao final de cada parágrafo, impossível não se revoltar, não acredito, me nego a acreditar que só eu me revolte com essa série.